Lantejoulas
Faltavam umas poucas lantejoulas no
novo figurino para eu ser a fada das borboletas. E no carro Skoda, azul bem céu do meu pai, as costureiras
retiradas às pressas de sua fábrica de lingerie,
vinham no banco traseiro bordando os brilhos na organza tão rapidamente, como
se uma varinha de condão de alguma fada invisível estivesse por perto.Faltavam
umas duas horas para o início do espetáculo.O bordado só ficou pronto quando
cruzamos a esquina da avenida Presidente Vargas e viramos a Rio Branco.
Não havia gostado do vestido de
fada que o teatro havia feito e que eu dançaria. Minha mãe também achou que
aquilo, - um branco meio sujo com uns dois paetês por fileira -, parecia mais
um pano de chão. Eu, nascida no subúrbio e tão pequena, ia ter a hora de estrela.
Imaginem: ser solista no Teatro Municipal do Rio de Janeiro aos dez anos de
idade!Jogamos o trapo fora!
E assim, tão pequena e tão leve fui
envolvida no palco enorme. Leve e mais ainda do que nas aulas onde a professora
me pedia para eu dançar meus braços para as bailarinas grandes aprenderem
comigo esse cisne que eu fazia, - nem sei como?
Luzes de todos os lados, - eu tinha
me esforçado muito para fazer dos meus pequenos braços, - plumas flutuantes. A
platéia me aplaudia. Muito. Aquela luz, aquela grande lantejoula eu jamais
esqueci.
Pois é, um dia, há muito tempo, de um jeito ou de outro éramos todos versados em alguma arte (eu tocava piano em audições no Golden Room do Copa). Por aí se vê como é bom resgatar as infâncias dentro de nós. Beijos
ResponderExcluirRafael