terça-feira, 30 de julho de 2013

                                      Se você for o meu amor




                                            Se você for o meu amor
                                                        Nem tudo está perdido
                                            Farei trilhas em minhas rimas
                                            Te lamberei os dedos

                                            Primavera serei linda
                                            A jorrar rosas e rosas sobre ti

                                            Se você for o meu amor
                                            Também ficarei exausta
                                            Te mandarei embora
                                            Como fazem os vendavais

                                            Outonal ficarás nu, árvore sêmen-esquecida
                                            A desfolhar folhas da minha memória

                                            Se você for o meu amor
                                            Quando eu chegar
                                            No outro dia de manhã
                                            Me receberás florindo


                                            Eu sorrindo vou entrando no teu quarto devagar

In, Aqui dentro de mim, 2002, Aeroplano editora

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Crença



Mas por favor
Não me machuquem
Acredito em mitos

Por favor
Não me batam
Acredito em príncipes

Não me dêem essas migalhas
Quando são poucos os dias
Para minha eternidade

Por favor
Não me façam chorar
                                                           Acredito em lágrimas

In , No Azul, 1991, Imago editora

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Canseira



Queria descansar
Nos teus braços
Esquecer.

Queria esquecer
Dos teus braços
Descansar.



Do livro , No Azul, 1991

segunda-feira, 8 de julho de 2013


*Breve Anunciação, um olhar
                                                                                          por Rosália Milsztajn

O amor é coisa de alma quando João Corrêa - que fez a concepção e direção do poema belíssimo de Thereza Roque da Motta, "Breve Anunciação" - veste os personagens em cena.

No início do espetáculo, despidos no ato amoroso, pouco a pouco colocando suas roupas, se desnudam um para o outro, e também para nós, espectadores, num diálogo amoroso sem fim que se sustentaria ao infinito se eles, ou qualquer um de nós, mortais, desse conta do amor que é eterno, infinito, ultrapassando-nos e transbordando num discurso entre os personagens do amor, quase como marionetes empurrados e manipulados, encarnando a luta entre o efêmero e finito com o que é perene e maior.

Além desta impossibilidade, existe ainda uma luta entre o amor de si e o amor pelo outro que se debatem sem fim nem trégua, diante da ameaça de aniquilamento de si para além da paixão irresistível despertada entre homem e mulher ali no palco. Este palco é também uma sala, num mesmo piso que nos inclui, a todos nós espectadores, dentro de um solar lindo e quase eterno, o Solar do Jambeiro, em Niterói.

O amor que se desenrola ainda na possibilidade só é viável na medida em que possa realizar o amor de cada um por si e pelo outro concomitantemente: "Ama-me como eu me amo e como um dia te amaste", ou ainda, "Amo-te como um dia fui amado por mim. Amo-te para voltar a amar-me". Cada um quando olha para o outro procura delinear seu próprio corpo, sua pele, seus limites, sua identidade e, caso o amor pelo outro ultrapasse o amor por si mesmo, deve ser imediatamente afastado com todas as garras da violência e com qualquer subterfúgio, mesmo com palavras mentirosas escritas como pontiagudas facas, controlando aquilo mesmo que nos escapa e maior que nós.

Acho que Thereza Rocque da Motta fica totalmente à vontade com seu texto na descrição desse discurso já que sua lindíssima poesia tem o dom de encarnar todas essa nuances e estética próprias para descrever, envolver, revelar e antecipar o incomensurável e o insólito do amor.

João Corrêa conseguiu, através de seu olhar extremamente sensível e competente realizar a dramaturgia do poema e trazendo a eternidade da palavra poética para a presentificação do palco. Jean Cândido Brasileiro e Helena Hamam têm atuações brilhantes. São os protagonistas de "Breve Anunciação", fazem o par dos amantes onde devem e conseguem atuar a multiplicidade que o discurso e a situação amorosa impõem, além da complexidade do um texto poético.


Tudo o mais é lindo e apurado, a música, a luz , o cenário e a coreografia dos corpos. Bravo!


07/07/2013

*Pequeno ensaio sobre a Peça " Breve Anunciação , de Thereza Rocque da Motta

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Cinturão

Pequeno ensaio sobre o conto "O cinturão" de Graciliano Ramos


Por Rosália MIlsztajn

           O conto O Cinturão poderia ser um relato de um paciente em psicanálise, contando ao seu analista suas mais dolorosas lembranças de infância, e sua relação com seus pais, tal a profundidade psicológica que o autor alcança na descrição dos sentimentos, medos e desejos infantis que habitam a mente humana.
Por outro lado poderia ser um depoimento de uma vítima de abuso de poder e de violência doméstica levantando questões éticas importantes, tal a vivacidade da linguagem na descrição, crua , forte, da violência sofrida pelo narrador e personagem do conto.
O narrador descreve duas cenas infantis onde foi espancando , primeiro por sua mãe e uma outra cena mais importante e descrita com maiores minúcias, pelo seu pai que guardou na memória como absolutamente traumática e inesquecível.
Logo no início da leitura do Cinturão o que chama atenção e me parece o mais intrigante, é , como a vítima , o menino de 4 ou 5 anos, pode transformar-se em réu? O que fez ele? Qual sua culpa?
De que julgamento o menino estava participando?
Que espécie de justiça o conte se refere?
Por que seria natural os pais baterem em seus filhos?
Por que não guardou ódio de sua mãe e a desculpava colocando a culpa na corda? E os golpes físicos desapareciam quando findava a dor?
Por que seria a ameaça do pai pior que a dor física e pior que apanhar de sua mãe? Seria um outro tipo de ameaça? Parece que sim!
O menino se julgava um covarde habitual, débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, ao invés de sentir-se violentado, injustiçado. Por que deveria ele explicar-se onde estava o cinturão ?
Medo, muito medo reprimido , como fala o narrador, pois mesmo que soubesse onde estava o cinturão seria impossível responder, “emudecia, tão apavorado que se achava”,  e continua: “situação desse gênero  constituíam as maiores torturas de minha infância” e ainda, “O moleque  e os cachorros eram inocentes”, e ele não era?
O martírio e o suplicio ao qual se refere estariam muito mais ligados a um medo reprimido e a ameaça que seu pai representava, “O suplicio... por muito prolongado que tivesse sido não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho dele a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível”. 
            Segundo Sigmund Freud, na infância exatamente na idade do personagem do conto, isto é , entre quatro e cinco anos, o menino sente-se muito ameaçado pela figura do pai , e tem medo de ser  punido por ele e até castrado pelo desejo incestuoso que tem pela mãe. Resumidamente , isto é o que se denominou como Complexo de Édipo. No conto apesar de uma situação de realidade acontecer, isto é , a violência dos pais em relação ao filho,  tão real e atual encontrada em nossa sociedade, existe um horror a mais, um medo reprimido a mais, uma vítima que se  considera réu, uma atitude de alguém que merece castigo, além de toda a fragilidade de uma criança frente a agressão de um adulto. 
              Talvez isso possa explicar porque se coloca como réu e não como vítima, porque o sentimento que fica da surra de sua mãe é diferente da do seu pai e talvez esse julgamento e a justiça que o narrador se refira esteja ligada a essas fantasias mais profundas da mente humana. E a incapacidade do pai de pedir perdão ao menino pela injustiça cometida em relação a ele, quando achou o cinturão, poderia aliviar a culpa inconsciente do filho, e este por sua vez poderia sentir-se mais amado com sua auto estima aumentada. 
              “E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão miúdo e insignificante como as aranhas que trabalham na telha negra”. “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”. A justiça  aconteceu no nível inconsciente. E na outra camada , isto é da realidade, a justiça parece que sempre é um pouco injusta.
O conto é uma criação literária que é ao mesmo tempo denúncia e testemunho.


Rio de Janeiro, 04 julho de 2006