quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coração


Coração

Era a primeira vez que estava ali. Não sabia que não mais voltaria lá, ao menos fisicamente. Aquela imagem de vê-lo rodando ininterruptamente não saiu de minha cabeça por uma semana. Enquanto eu subia ou descia escadas, comia, tomava banho, escovava os dentes, na hora de deitar, quando acordava, - ele estava lá girando e girando sem parar, sem cansar, sem comer, sem dormir, sem escovar os dentes, - e me sentia mal. Eu fazia tantas coisas nos meus dias e ele só rodava. Entre um gole e outro de café, ele continuava a vir no meu pensamento como um coração que vive e bate sem interrupção e que de repente se presta atenção aos seus batimentos. Eu prestava atenção a esse coração em minha cabeça, volta e meia e toda hora. Como que eu podia fazer tanta coisa em minha vida enquanto ele só rodava? Descobri que me importava com ele, que pensava num desconhecido e o  que fazia, ou melhor, não fazia, paralelamente à vida que eu vivia. E como isso me revelava que estamos uns para os outros neste mundo, naquele pátio do hospital psiquiátrico, numa rua qualquer, numa cidade ou país. Compartilhamos todos.

09/V/2013

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