Coração
Era a primeira vez que estava ali.
Não sabia que não mais voltaria lá, ao menos fisicamente. Aquela imagem de
vê-lo rodando ininterruptamente não saiu de minha cabeça por uma semana.
Enquanto eu subia ou descia escadas, comia, tomava banho, escovava os dentes,
na hora de deitar, quando acordava, - ele estava lá girando e girando sem
parar, sem cansar, sem comer, sem dormir, sem escovar os dentes, - e me sentia
mal. Eu fazia tantas coisas nos meus dias e ele só rodava. Entre um gole e
outro de café, ele continuava a vir no meu pensamento como um coração que vive
e bate sem interrupção e que de repente se presta atenção aos seus batimentos.
Eu prestava atenção a esse coração em minha cabeça, volta e meia e toda hora.
Como que eu podia fazer tanta coisa em minha vida enquanto ele só rodava?
Descobri que me importava com ele, que pensava num desconhecido e o que fazia, ou melhor, não fazia,
paralelamente à vida que eu vivia. E como isso me revelava que estamos uns para
os outros neste mundo, naquele pátio do hospital psiquiátrico, numa rua
qualquer, numa cidade ou país. Compartilhamos todos.
09/V/2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário