A
dança do lipoma
A mão dele deslizava incrédula sobre a superfície
estufada das costas dela, sob o vestido de seda pura, na tentativa de dar algum
sentido a aquilo que se opunha ao seu raciocínio, mas não ao toque.
Moça linda, da
zona sul, vegetariana, corpo quase escultural, uma advogada!O que era aquilo
nas costas dela? Ela não podia ter aquilo, - ele pensava com certo medo.
Pesquisava com seus dedos inseguros e cegos. Pelo amor de Deus, alguma
providência! Um botox, um laser! Hoje todo mundo faz, - que
imperfeição era aquela - ele devia estar se perguntando. E dançavam e dançavam
enquanto ela ria por dentro como se acompanhasse os pensamentos dele,
espectadora de suas dúvidas e incredulidade.
Passou até na
cabeça dela que ele poderia ter se assustado por ter encontrado um pênis. Um
pênis?É. Nada é impossível para a imaginação humana. E sendo assim, poderia até
ter ficado com medo: - uma mulher, ou melhor, uma advogada, vegetariana com um
pênis nas costas? Como alguém poderia ter deixado crescer uma coisa dessas? Ela
ria, ria muito. Num tempo onde todo mundo procurava a perfeição física!Mas
continuaram a dançar. E a cada escorregada dos dedos a mão dele procurava
identificar esse objeto estranho. Os dedos, as costas, o lipoma, numa seqüência
infinita. De repente, parecia um médico a fazer palpações. E o lipoma que nada sabia,
escorregava por entre seus dedos como que em fuga de algum diagnóstico. Ela
morria de rir. Ela ria e dançava. Ele dançava e se espantava, mas não desistia,
até porque, procurava um apoio para segurá-la entre suas mãos trêmulas. O
lipoma não entendia nada - talvez se perguntasse por que tanto movimento, tanto
pra lá e pra cá? Até que a música terminou e com um jeito de sem graça, sem
perguntar nada, sem qualquer comentário e um pouco triste, cravou um olhar de
comiseração na direção dela e foi se afastando no salão abarrotado de gente e
sumiu.
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