quarta-feira, 8 de maio de 2013

A dança do lipoma


A dança do lipoma


A mão dele deslizava incrédula sobre a superfície estufada das costas dela, sob o vestido de seda pura, na tentativa de dar algum sentido a aquilo que se opunha ao seu raciocínio, mas não ao toque.
Moça linda, da zona sul, vegetariana, corpo quase escultural, uma advogada!O que era aquilo nas costas dela? Ela não podia ter aquilo, - ele pensava com certo medo. Pesquisava com seus dedos inseguros e cegos. Pelo amor de Deus, alguma providência! Um botox, um laser! Hoje todo mundo faz, - que imperfeição era aquela - ele devia estar se perguntando. E dançavam e dançavam enquanto ela ria por dentro como se acompanhasse os pensamentos dele, espectadora de suas dúvidas e incredulidade.
Passou até na cabeça dela que ele poderia ter se assustado por ter encontrado um pênis. Um pênis?É. Nada é impossível para a imaginação humana. E sendo assim, poderia até ter ficado com medo: - uma mulher, ou melhor, uma advogada, vegetariana com um pênis nas costas? Como alguém poderia ter deixado crescer uma coisa dessas? Ela ria, ria muito. Num tempo onde todo mundo procurava a perfeição física!Mas continuaram a dançar. E a cada escorregada dos dedos a mão dele procurava identificar esse objeto estranho. Os dedos, as costas, o lipoma, numa seqüência infinita. De repente, parecia um médico a fazer palpações. E o lipoma que nada sabia, escorregava por entre seus dedos como que em fuga de algum diagnóstico. Ela morria de rir. Ela ria e dançava. Ele dançava e se espantava, mas não desistia, até porque, procurava um apoio para segurá-la entre suas mãos trêmulas. O lipoma não entendia nada - talvez se perguntasse por que tanto movimento, tanto pra lá e pra cá? Até que a música terminou e com um jeito de sem graça, sem perguntar nada, sem qualquer comentário e um pouco triste, cravou um olhar de comiseração na direção dela e foi se afastando no salão abarrotado de gente e sumiu.

08/V/2013

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