sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Amarelo Branco

Minha vida vem sendo torrada por esse sol quente de janeiro.Segundos, minutos ou horas não se diferenciam, o tempo passa rápido mas estagnado ,massacrado por esse calor de mesmice.Estou sem idéias e a vida passa diante de meus olhos e já não a alcanço, não.Meus braços não têm sido abraçados e isto faz toda a diferença.Parece tudo um aglomerado de palavras ,histórias sem sentido , mãos sem prá quê, sem ter o que pegar.Passam as tardes embora não as sinto passar, assim como fogueira a queimar um papel frágil que rapidamente desaparece.
Rio de Janeiro, quinze horas e três minutos e todos os meus planos fracassados. Todas as previsões não cumpridas. Estou aqui e não sei o que falo para mim. Não dá para consertar, se arrepender, pedir desculpas. Nada funciona. Só o verão com essa luz repetitiva, implacável que não me diz nada e nem abrilhanta minha existência inútil.
Só resta sentir calor, enxugar o suor que não foi fruto do trabalho, às vezes se abanar, às vezes ligar um pouco o ar condicionado, não muito, para não gastar muita energia e ir se empurrando pelas beiradas desse branco mental, esse estupor de nada que me carrega os dias em que poderia estar amando. Mas quanto mais quis mais perdi ou não tive. Mediocridades. Fico quieta brincando de morta viva e quem sabe alguma coisa possa acontecer.
Esse sol ,esse sal é para os amantes que no verão se esfregam como superfícies a inventarem o fogo, a maior descoberta- o calor humano.
Esse mar banhando peles que derretem tesão, aflição , expectativas, não é mais o meu.
Talvez o branco, o frio,a neve a cultura da solidão possam dar um empurrão no destino e voar para a Europa, nos Alpes, quem sabe encontrar o onde e o quando da minha escalada.



Rio, 23/01/2014
Rosália Milsztajn

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Areias

Ela achava que acabaria ao fim de seus dias, morando na Rua Barata Ribeiro, ou melhor, se tornaria a própria barata, sem querer plagiar Kafka, solitária, estranha para si mesma e esquecida ali naquele conjugado, cubículo de apartamento, como se até mesmo aquela metragem lhe fosse demais.
De onde havia tirado esta nova personagem, se nesta mesma Barata Ribeiro havia passado os mais belos momentos de sua pré-adolescência. Sua tia vivia só, mas não era uma barata e nem triste.Fazia um *cholen maravilhoso.
 Nem mesmo lembrava-se de alguma tristeza que pudesse ter lhe marcado. Muito ao contrário. Só poucas e boas. Muito mais perto da praia do que a Tijuca, onde morava, deleitava-se nas primeiras horas das manhãs de verão com a espuma branquinha daquele mar enorme quando encontrava com a areia alva cheia de tatuís.Eram deliciosos quando fritos! Os lábios salgados e a língua em comunhão com o universo palpitava de sabores. Fora as palavras que escrevia nas areias, letras lindas que se desfaziam lentamente ao chamado das ondas em seus abraços. Era feliz! Rua Duvivier!Empadinhas da loja de massas. Uma brisa fresca e o cheiro de maresia invadindo os sentidos tomados por novas descobertas.
Mar de melancolias. Por que ser uma barata, um inseto indesejado, morando numa solitária, com sonhos e desejos presos num cubículo da Barata Ribeiro?Achava-se desonesta: deveria ter ido mais vezes à praia, escrito mais nomes nas areias e talvez comido menos empadinhas? Estava inchada de pesadelos.
*cholem prato da culinária judaica

Mini conto , 2014