quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lantejoulas

Faltavam umas poucas lantejoulas no novo figurino para eu ser a fada das borboletas. E no carro Skoda,  azul bem céu do meu pai, as costureiras retiradas às pressas de sua fábrica de lingerie, vinham no banco traseiro bordando os brilhos na organza tão rapidamente, como se uma varinha de condão de alguma fada invisível estivesse por perto.Faltavam umas duas horas para o início do espetáculo.O bordado só ficou pronto quando cruzamos a esquina da avenida Presidente Vargas  e viramos a Rio Branco.
Não havia gostado do vestido de fada que o teatro havia feito e que eu dançaria. Minha mãe também achou que aquilo, - um branco meio sujo com uns dois paetês por fileira -, parecia mais um pano de chão. Eu, nascida no subúrbio e tão pequena, ia ter a hora de estrela. Imaginem: ser solista no Teatro Municipal do Rio de Janeiro aos dez anos de idade!Jogamos o trapo fora!
E assim, tão pequena e tão leve fui envolvida no palco enorme. Leve e mais ainda do que nas aulas onde a professora me pedia para eu dançar meus braços para as bailarinas grandes aprenderem comigo esse cisne que eu fazia, - nem sei como?
Luzes de todos os lados, - eu tinha me esforçado muito para fazer dos meus pequenos braços, - plumas flutuantes. A platéia me aplaudia. Muito. Aquela luz, aquela grande lantejoula eu jamais esqueci.

20/V/2013

terça-feira, 21 de maio de 2013

A cura


*A cura


Moço, quanto custa a maçã? Um kilo?Ele responde:doze reais.Doze reais ela repete lhe indagando, mas é muito caro!Caro, responde ele, perguntando.
É ela insiste, muito caro. Ele já bem irritado e com um ar meio doutoral diz: mas a senhora não sabe que isso cura o câncer e ao invés de gastar com remédios que não adiantam nada, a maçã até que está bem baratinha. Ela estupefata pergunta com ironia: Em qual faculdade de medicina o Dr. se formou? Mas eu sei, dizendo com a voz forte quase esmagadora, cura sim e não precisa ser médico para saber disso. Ela continuando: acho que o senhor deveria tentar publicar suas descobertas em algum jornal, em algum lugar para as pessoas saberem da cura do câncer. Sabe acho mesmo que o Dr. deve ter razão, eu que sou doutora não sabia, embora tenha outra especialidade na área de saúde, mas é isso mesmo.O Sr.Dr. sabe que o meu dentista outro dia deu uma ótima interpretação psicanalítica para uma paciente que estava em sua cadeira extraindo o dente siso?
E ela saiu braba sem levar as maçãs e ele, arrependido correu atrás da moça com uma manga desculpando-se e dizendo: essa manga está docinha, toma ela de presente é muito bom para os estresses!

20/V2013


*Em homenagem a todos os feirantes e leigos do caso Jolie

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Poesia patricinha e mauricinho




Poesia patricinha e mauricinho

Estou cheia dessa poesia patricinha ou mauricinho como preferirem - vazia. Obedecem a um desritmo, por vezes uma desrima, ou aliteração fóbica fugindo de qualquer musicalidade para não ser confundida com um poema, - aquele das antigas, careta, com pé e cabeça.
Sem espírito, sem alma, não dá para fazer poesia. Além disso, é necessário a percepção de quem joga a própria alma na estrada da vida inesperada e surpreendente, diferente da experiência universitária protegida, vida das academias e seus professores, seus orientadores e orientandos seguindo os ensinamentos corretos e ritmados tão valorizados  pelos editores bonzinhos que publicarão seus textos se também seguirem a direção do mercado.
Palavras, frases, textos de efeito e que não dêem a sensação de transcendência e que nada do lirismo transpareça. Esse coitado, por sinal, deve desaparecer de uma vez por todas.
Dizem eles:- “muito sentimentalismo, quanta emoção! Melodrama!
Na verdade, estão vazios e riem da sua própria falta de esperança. Mais ainda, se é para sentir alguma coisa, ou melhor, dessentir, só sendo violentamente destrutivo, como o são,  - atacantes de qualquer amor ridículo. Se por algum acaso o amor não tiver sido ainda pulverizado no poema, o que resta é uma profunda melancolia, ou frustração ou um sentimento de vingança que necessariamente será escatologicamente cantado. É a revolução - gritam as patricinhas e os mauricinhos.
 Entendo agora que a poesia está doente dessa melancolia. Uma melancolia irritada, vingativa, ressentida, onde a palavra deve ser cuspida no papel e não esculpida. Não dizer absolutamente nada usando até muitas palavras é o ideal e se ainda puderem passar um gostinho cinza, um vácuo, uma despersonalização no leitor, enquanto o autor permanece com aquele risinho sádico espiando o leitor, um idiota.
E se ainda aquele que se diz poeta puder ter um grupito de poetas que escrevam como ele e não compreendam nada do que escrevem, só aquela bossa do desescrever, do dessentir e da curtição desse não entendimento, e até fazendo piada e ter um humor bacana de se ver, exibido em algum sarau, com toda a alegria de denegrir os  líricos e os outros poetas sentimentalistas que sem dúvida, por sorte ainda não desistiram
.Assim unidos, elaboram uma série de conceitos, do bem e do mal, quem é bom e quem não é, porque até os poetas devem ser absolutamente taxados.
 Quanto às editoras não gostaria de começar a falar, mas já que comecei, não são todas, quero ressaltar, mas algumas no golpe de que: - poesia é pouco lida, vende pouco, não é comercial - aí não publicam, só publicam poesia dos bobocas dos poetas que paguem as suas edições. Nem sei se são bobocas, porque a poesia é boa de qualquer maneira e mesmo assim , vale à pena
Os outros autores publicados são jornalistas, atores, cantores ou moram na comunidade, -  o último must - , estão na mídia. O texto é o que menos importa. Esse não interessa, porque como ninguém entende poesia mesmo, até mesmo os próprios editores,como eu  ia dizendo, agora piorou. A onda é poesia para ninguém entender mesmo.
Uma ladainha, um desconforto, um tédio de palavras será sempre mais seguro. Os mauricinhos e patricinhas estão sendo editados, publicados, difundidos levados para as feiras, para o exterior e trocam com tantos outros um nada  muito condizente com todo o desamor dessa terra.Para que ter poetas, ou melhor como ter poetas , se poesia é o amor?
Sentimental, não?

14/V/2013








sexta-feira, 17 de maio de 2013

O demônio de Angelina


O demônio de Angelina


 “Quantas mulheres com a mesma mutação de Angelina Jolie não se sentirão tentadas ou pressionadas a seguir o mesmo exemplo, diz o jornalista.E eu respondo tomara  que sigam o mesmo exemplo.Essa escolha é muito difícil mas vale a pena.
“O tratamento não era necessário, ela não estava doente”, insiste o jornalista agora, ao modelo daquele conto infantil, cuspindo vermes, cobras, lagartos e todas as porcarias do mundo como, por exemplo:” ela se cortava com  navalha e chafurdava em drogas”, “ adulta paga picaretas para anestesiá-la e cortá-la com bisturis”, “ decidiu realizar a dupla mastectomia preventiva, é macabro”, tirar duas mamas saudáveis, é loucura varrida”, o New York Times se rebaixa a pasquim publicando o texto” e por aí vai.... Perdeu uma grande oportunidade de ficar calado. Já ouviu falar em tratamento preventivo?Em liberdade de imprensa, em liberdade de pensar,  de decidir , escolher.Já ouviu falar de liberdade?
E o preconceito minha gente?”entre ricos e famosos cirurgia é o arroz com feijão de todo dia”, “Angelina fez, mudou de rosto,  nasceu com muito a seu favor, mas ninguém nasce perfeita, tinha narizinho achatado, rosto redondinho , uma perfeita polinésia”, alguém aí tem alguma coisa contra as polinésias?
“Seria desejável que toda a humanidade tivesse acesso a medicina preventiva gratuita”, também concordo, até para fazer o tratamento preventivo que Jolie fez. ”Jolie, milionária, pode pagar os melhores médicos do mundo” e daí? Terá ela que ser mutilada em sua decisão de  tratamento preventivo porque ela é milionária?”ela escolheu o que há de mais agressivo, invasivo e explosivo”. Será que Sr.Jornalista não está confundindo o câncer que ela decidiu se prevenir com a decisão dela?
“Seu médico topou fazer, tem médico que topa tudo”, não topam não, e eu pergunto, - você conhece essa enorme equipe médica?Conhece todas as pesquisas que estão sendo feitas em todo o mundo  e com os melhores resultados preventivos?Erro médico existe, mas isso não foi erro médico, foi pesquisa, escolha, tratamento preventivo, respeito, decisão.
 “A maioria dos especialistas recomendam ressonância magnética e mamografias anuais, simples assim”, continua o Sr.Jornalista discutindo os detalhes médicos. Não é simples assim, não Sr. Jornalista. Para quem tem a mutação genética BRCA1, Sr. Jornalista, não é assim;porque as lesões quando aparecem podem aparecer já num estágio muito agressivo e invasivo e por isso para quem não faz a cirurgia e tem essa genética é recomendado fazer esses exames não anualmente,mas sim de três em três meses e mesmo assim passível de adoecer neste mínimo intervalo de tempo.Isto quer dizer, quando for pegar o resultado do exame já teria que começar a fazer o próximo.Mais ou menos  assim:viver fazendo exames ininterruptamente de três em três meses, vivendo na sintonia da doença, da morte, de exames sem fim, coisa que Angelina não quis.Preferiu viver para vida, e não para morte.
E o Sr. Jornalista finaliza:”Angelina é cretina, mais o idiotas os que a tomam por heroína”, Aí eu digo:Ninguém quer fazer a Angelina de heroína e nem tomar a Angelina ou heroína, -rs, rs, rs,rs. Isto me lembra a criança que quando muito pequenininha, de colo , mamando ainda os peitos da mãe,obcecada por eles, sua única fonte de vida e por isso extremamente  dependente,  acha que os peitos da mãe são dela, porque ainda não os pode ver  como peitos da sua mãe, e diferenciá-los de si.
Se ainda assim o Sr. Jornalista não pode compreender os outros motivos científicos do tratamento preventivo e seus benefícios, eu digo :peitos são da Angelina minha gente.


*Esse meu texto foi baseado e também de alguma forma serve como resposta de um artigo escrito por um jornalista de um blog e compartilhado e muito curtido hoje na rede do  facebook


17/V/2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

Braca não é brega


Braca,  não é brega

Hoje quando acordei
Depois de ler o New York Times
Fiquei com vontade de convidar
A Angelina Jolie para tomar uma cerveja
Aqui no Leblon

Fiquei pensando qual bar seria melhor

 Nós duas somos bracas
Não é brega, gente
É braca
Isto é: temos a genética para câncer de mamas
E quem tem esse gene na gíria médica
É chamada de braca

Bater um papo
Trocar experiências
 Eu e Angelina numa mesa do Bracarense
Brindar à vida!
Sanar  feridas
Depois da cirurgia
De mastectomia
Somos bracarenses
Super femininas
Divinas mulheres
Aliviadas
Não mais marcadas
E bem felizes

Tchin, tchin!


14/V/2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Batatas


Batatas

Ela gostava muito de batatas fritas; principalmente aquelas industrializadas, - esqueci o nome -; é essa mesma que vocês acabaram de lembrar. Era quase uma compulsão. Bastava entrar no supermercado e olhar nas prateleiras.
Eram muito, muito salgadas, mas deliciosas e ela ficava preocupada com a sua pressão arterial. Abria a embalagem se embalando na gostosura, mas apenas comia umas poucas lascas e lhe vinha a preocupação com a saúde.
Percorria os vários corredores procurando um vão, um buraco qualquer onde pudesse deixar o resto do saco com a batata que se proibia de comer e já, - pensava ela -, que só tinha experimentado, achava que não devia pagar ao supermercado e mais ainda, - achava que deveria ter a cortesia do mercado.Afinal era uma cliente antiga e assídua e assim, se liberava de pagar pelo que tinha consumido.Fazendo as contas, já havia gasto sacos de dinheiro com compras ali.Agora só precisava de um momento , que ninguém a visse, um instantâneo para deixar o produto do roubo.
Sem querer, tinha se tornado uma ladra de um dia para o outro.
O supermercado, na pessoa de seu gerente procurava nesses últimos dias encontrar o responsável por todos aqueles roubos de sacos de batatas fritas encontradas abertas e roídas todos os dias espalhados em muitos cantos dali. Quem seria a ladra das batatas fritas?
Por outro lado, ela, depois de algum tempo, começou a notar pacotes de balas, biscoitos, abertos deixados nos mesmos esconderijos e perguntava-se indignada: quem a estava imitando? Quem eram esses outros?Talvez diabéticos?

13/V/2013

domingo, 12 de maio de 2013


Azul



Minha mãe era a mulher mais bonita do bairro
Ela passava e a sombra azul dos olhos
Tornava céu Madureira
A estação de trem tremia as árvores continham os gemidos
Dos que ali amontoados se espremiam
Para ver o olhar em horizonte daquela mulher

Pequenas avenidas mudavam como festa
O sol em lustre de cristal brilhava
Enquanto Cinderela passava

Às vezes passava a escola de samba também
Bate-bolas diabos morcegos enfeitados
Para a alegria eu tinha medo
Tinha o natal tudo era presente e encontro de felicidade
Tinha o Natal de carne que controlava o jogo de bichos
Era rico esse homem
Tinha um anel no mindinho
Resplandecia menos que minha mãe
Eu
Era franzina portava um porta-seios um soutien azul
Na blusa ligeiramente aberta
Guardava no peito a chama de ser como ela
Em azul explodir fulminante corações
Essa energia tenho escondo
Porque no espelho respondo
Existe alguém mais bela?

Para onde dá esse azul dos teus olhos?

12/V/2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A mãe de histórias


A mãe de histórias

           
E Deus tinha caminhado à noite pelas areias de Copacabana.
Eu soube quando raiou o dia e as marcas redondas acolchoavam o tapete que as crianças pisavam.
Presença reconhecida pelo meu coração desejoso de esperança
Aqueles dias anteriores tinham sido esgotantes
Sentia lugar para ninguém mais em mim 
Tinha nascido um rio seco e um galho sem folhas bem descascado
aqui dentro da minha barriga 
Eu seria de agora em diante uma vara bem fininha para bater em quem se aproximasse de mim querendo contar estórias de amor e de gostar. 
Desencantei-me. A carruagem virou abóbora e a abóbora virou melão
e o melão virou lágrima.
É lógico que Ana estava muito triste.Afinal aproximava-se o dia das mães e a dela tinha morrido há poucos meses.Apenas o mundo não tinha culpa disso e nem ficaria mais ou menos triste por causa dela.
Quem poderia sentir sua dor ? 
Mas eu estou contando de Ana porque Ana era só coração. 
Sua emoção flutuava entre as montanhas e os mares da zona sul onde ela nasceu.
E além disso, Ana achava que tudo acabara.
Mas eu queria que vocês dissessem à ela que é mentira.
E contem também à Ana que vocês gostam muito dela e 
aí ela levantará os olhinhos negros e cheia de curiosidade vai notar
o tom da pele, o brilho dos olhos e vai querer conhecer vocês 
Aliás, eu não tinha falado ainda como Ana é curiosa !!!!!!
Ela olha tudinho para tecer nos seus sonhos histórias e mais histórias com a gente todas as noites 
O que Ana não sabe....
É que ela é mãe de histórias  e
por enquanto que ela não sabe 
 eu vou escrevendo por ela e
aí, vocês vão lendo, vão ficando com os olhinhos brilhando e
quando vocês encontrarem a Ana
o olho dela vai brilhar também e ela vai continuar a viver










quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coração


Coração

Era a primeira vez que estava ali. Não sabia que não mais voltaria lá, ao menos fisicamente. Aquela imagem de vê-lo rodando ininterruptamente não saiu de minha cabeça por uma semana. Enquanto eu subia ou descia escadas, comia, tomava banho, escovava os dentes, na hora de deitar, quando acordava, - ele estava lá girando e girando sem parar, sem cansar, sem comer, sem dormir, sem escovar os dentes, - e me sentia mal. Eu fazia tantas coisas nos meus dias e ele só rodava. Entre um gole e outro de café, ele continuava a vir no meu pensamento como um coração que vive e bate sem interrupção e que de repente se presta atenção aos seus batimentos. Eu prestava atenção a esse coração em minha cabeça, volta e meia e toda hora. Como que eu podia fazer tanta coisa em minha vida enquanto ele só rodava? Descobri que me importava com ele, que pensava num desconhecido e o  que fazia, ou melhor, não fazia, paralelamente à vida que eu vivia. E como isso me revelava que estamos uns para os outros neste mundo, naquele pátio do hospital psiquiátrico, numa rua qualquer, numa cidade ou país. Compartilhamos todos.

09/V/2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A dança do lipoma


A dança do lipoma


A mão dele deslizava incrédula sobre a superfície estufada das costas dela, sob o vestido de seda pura, na tentativa de dar algum sentido a aquilo que se opunha ao seu raciocínio, mas não ao toque.
Moça linda, da zona sul, vegetariana, corpo quase escultural, uma advogada!O que era aquilo nas costas dela? Ela não podia ter aquilo, - ele pensava com certo medo. Pesquisava com seus dedos inseguros e cegos. Pelo amor de Deus, alguma providência! Um botox, um laser! Hoje todo mundo faz, - que imperfeição era aquela - ele devia estar se perguntando. E dançavam e dançavam enquanto ela ria por dentro como se acompanhasse os pensamentos dele, espectadora de suas dúvidas e incredulidade.
Passou até na cabeça dela que ele poderia ter se assustado por ter encontrado um pênis. Um pênis?É. Nada é impossível para a imaginação humana. E sendo assim, poderia até ter ficado com medo: - uma mulher, ou melhor, uma advogada, vegetariana com um pênis nas costas? Como alguém poderia ter deixado crescer uma coisa dessas? Ela ria, ria muito. Num tempo onde todo mundo procurava a perfeição física!Mas continuaram a dançar. E a cada escorregada dos dedos a mão dele procurava identificar esse objeto estranho. Os dedos, as costas, o lipoma, numa seqüência infinita. De repente, parecia um médico a fazer palpações. E o lipoma que nada sabia, escorregava por entre seus dedos como que em fuga de algum diagnóstico. Ela morria de rir. Ela ria e dançava. Ele dançava e se espantava, mas não desistia, até porque, procurava um apoio para segurá-la entre suas mãos trêmulas. O lipoma não entendia nada - talvez se perguntasse por que tanto movimento, tanto pra lá e pra cá? Até que a música terminou e com um jeito de sem graça, sem perguntar nada, sem qualquer comentário e um pouco triste, cravou um olhar de comiseração na direção dela e foi se afastando no salão abarrotado de gente e sumiu.

08/V/2013

domingo, 5 de maio de 2013

Sem pecado e sem juízo


Sem pecado e sem juízo

E essa auto-ajuda: -  Facebook.Todos têm tantos ditos, mensagens, poemas!É de matar de tédio. E as revoluções?São tantas! Feitas na teia sem aranhas, sem indignação!Você me adiciona? Você quer ser meu amigo? Quantos convites? Será que sou mesmo convidada? E a paz!São tantos os votos de paz e amor. E quando é seu aniversário todos se lembram de você e fazem muita festa.Tudo pouco virtuoso e sem virtudes. A indignação parece ter desaparecido restando as fotografias do pôr do sol, pratos exóticos de comidas que se repetem como as listras de chocolate no prato com um montinho qualquer de sobremesa do lado, - última novidade de mais um novo grande chef.
Não poderiam ser mais formais os elogios aos netinhos, filhos todos lindíssimos, os cachorrinhos, os gatinhos e as desculpas - as mais simplesinhas como por exemplo , - “estou indo ao banheiro , já volto já ou vou fazer xixi”.Todo mundo curte tudo na maioria das vezes,  e é tanto amor , carinho e atenção que fico duvidando que se estou percebendo o mundo aqui da janela de minha casa ou do meu carro , ou nas ruas onde ando, ou se fiquei cega de uma hora para outra?São ou não são as mesmas pessoas?E o que fazem essas pessoas sem indignação quando irrompe a violência nas ruas, tribunais, câmaras. Será que curtem ou não curtem?

05/V/2013