Areias
Ela achava que
acabaria ao fim de seus dias, morando na Rua Barata Ribeiro, ou melhor, se
tornaria a própria barata, sem querer plagiar Kafka, solitária, estranha para
si mesma e esquecida ali naquele conjugado, cubículo de apartamento, como se
até mesmo aquela metragem lhe fosse demais.
De onde havia
tirado esta nova personagem, se nesta mesma Barata Ribeiro havia passado os
mais belos momentos de sua pré-adolescência. Sua tia vivia só, mas não era uma
barata e nem triste.Fazia um *cholen maravilhoso.
Nem mesmo lembrava-se de alguma tristeza que
pudesse ter lhe marcado. Muito ao contrário. Só poucas e boas. Muito mais perto
da praia do que a Tijuca, onde morava, deleitava-se nas primeiras horas das
manhãs de verão com a espuma branquinha daquele mar enorme quando encontrava
com a areia alva cheia de tatuís.Eram deliciosos quando fritos! Os lábios
salgados e a língua em comunhão com o universo palpitava de sabores. Fora as
palavras que escrevia nas areias, letras lindas que se desfaziam lentamente ao
chamado das ondas em seus abraços. Era feliz! Rua Duvivier!Empadinhas da loja
de massas. Uma brisa fresca e o cheiro de maresia invadindo os sentidos tomados
por novas descobertas.
Mar de
melancolias. Por que ser uma barata, um inseto indesejado, morando numa
solitária, com sonhos e desejos presos num cubículo da Barata Ribeiro?Achava-se
desonesta: deveria ter ido mais vezes à praia, escrito mais nomes nas areias e
talvez comido menos empadinhas? Estava inchada de pesadelos.
*cholem prato da
culinária judaica
Mini conto , 2014
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