quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Areias

Ela achava que acabaria ao fim de seus dias, morando na Rua Barata Ribeiro, ou melhor, se tornaria a própria barata, sem querer plagiar Kafka, solitária, estranha para si mesma e esquecida ali naquele conjugado, cubículo de apartamento, como se até mesmo aquela metragem lhe fosse demais.
De onde havia tirado esta nova personagem, se nesta mesma Barata Ribeiro havia passado os mais belos momentos de sua pré-adolescência. Sua tia vivia só, mas não era uma barata e nem triste.Fazia um *cholen maravilhoso.
 Nem mesmo lembrava-se de alguma tristeza que pudesse ter lhe marcado. Muito ao contrário. Só poucas e boas. Muito mais perto da praia do que a Tijuca, onde morava, deleitava-se nas primeiras horas das manhãs de verão com a espuma branquinha daquele mar enorme quando encontrava com a areia alva cheia de tatuís.Eram deliciosos quando fritos! Os lábios salgados e a língua em comunhão com o universo palpitava de sabores. Fora as palavras que escrevia nas areias, letras lindas que se desfaziam lentamente ao chamado das ondas em seus abraços. Era feliz! Rua Duvivier!Empadinhas da loja de massas. Uma brisa fresca e o cheiro de maresia invadindo os sentidos tomados por novas descobertas.
Mar de melancolias. Por que ser uma barata, um inseto indesejado, morando numa solitária, com sonhos e desejos presos num cubículo da Barata Ribeiro?Achava-se desonesta: deveria ter ido mais vezes à praia, escrito mais nomes nas areias e talvez comido menos empadinhas? Estava inchada de pesadelos.
*cholem prato da culinária judaica

Mini conto , 2014

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