Pequeno ensaio sobre o conto "O cinturão" de Graciliano Ramos
Por Rosália MIlsztajn
O conto O Cinturão poderia ser um
relato de um paciente em psicanálise, contando ao seu analista suas mais
dolorosas lembranças de infância, e sua relação com seus pais, tal a
profundidade psicológica que o autor alcança na descrição dos sentimentos,
medos e desejos infantis que habitam a mente humana.
Por outro lado poderia ser um depoimento de uma vítima de
abuso de poder e de violência doméstica levantando questões éticas importantes,
tal a vivacidade da linguagem na descrição, crua , forte, da violência sofrida
pelo narrador e personagem do conto.
O narrador descreve duas cenas infantis onde foi espancando
, primeiro por sua mãe e uma outra cena mais importante e descrita com maiores
minúcias, pelo seu pai que guardou na memória como absolutamente traumática e
inesquecível.
Logo no início da leitura do Cinturão o que chama atenção e
me parece o mais intrigante, é , como a vítima , o menino de 4 ou 5 anos, pode
transformar-se em réu? O que fez ele? Qual sua culpa?
De que julgamento o menino estava participando?
Que espécie de justiça o conte se refere?
Por que seria natural os pais baterem em seus filhos?
Por que não guardou ódio de sua mãe e a desculpava colocando
a culpa na corda? E os golpes físicos desapareciam quando findava a dor?
Por que seria a ameaça do pai pior que a dor física e pior
que apanhar de sua mãe? Seria um outro tipo de ameaça? Parece que sim!
O menino se julgava um covarde habitual, débil e ignorante,
incapaz de conversa ou defesa, ao invés de sentir-se violentado, injustiçado.
Por que deveria ele explicar-se onde estava o cinturão ?
Medo, muito medo reprimido , como fala o narrador, pois
mesmo que soubesse onde estava o cinturão seria impossível responder,
“emudecia, tão apavorado que se achava”,
e continua: “situação desse gênero
constituíam as maiores torturas de minha infância” e ainda, “O
moleque e os cachorros eram inocentes”,
e ele não era?
O martírio e o suplicio ao qual se refere estariam muito
mais ligados a um medo reprimido e a ameaça que seu pai representava, “O
suplicio... por muito prolongado que tivesse sido não igualava a mortificação
da fase preparatória: o olho dele a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz
rouca a mastigar uma interrogação incompreensível”.
Segundo Sigmund Freud, na infância
exatamente na idade do personagem do conto, isto é , entre quatro e cinco anos,
o menino sente-se muito ameaçado pela figura do pai , e tem medo de ser punido por ele e até castrado pelo desejo incestuoso que tem pela mãe.
Resumidamente , isto é o que se denominou como Complexo de Édipo. No conto
apesar de uma situação de realidade acontecer, isto é , a violência dos pais em
relação ao filho, tão real e atual
encontrada em nossa sociedade, existe um horror a mais, um medo reprimido a
mais, uma vítima que se considera réu, uma atitude de alguém que merece castigo,
além de toda a fragilidade de uma criança frente a agressão de um adulto.
Talvez isso possa explicar porque se coloca como réu e não como vítima, porque
o sentimento que fica da surra de sua mãe é diferente da do seu pai e talvez
esse julgamento e a justiça que o narrador se refira esteja ligada a essas
fantasias mais profundas da mente humana. E a incapacidade do pai de pedir
perdão ao menino pela injustiça cometida em relação a ele, quando achou o
cinturão, poderia aliviar a culpa inconsciente do filho, e este por sua vez
poderia sentir-se mais amado com sua auto estima aumentada.
“E ali permaneci,
miúdo, insignificante, tão miúdo e insignificante como as aranhas que trabalham
na telha negra”. “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”. A
justiça aconteceu no nível inconsciente.
E na outra camada , isto é da realidade, a justiça parece que sempre é um pouco
injusta.
O conto é uma criação literária que é ao mesmo tempo
denúncia e testemunho.
Rio de Janeiro, 04 julho de 2006
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