quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Cinturão

Pequeno ensaio sobre o conto "O cinturão" de Graciliano Ramos


Por Rosália MIlsztajn

           O conto O Cinturão poderia ser um relato de um paciente em psicanálise, contando ao seu analista suas mais dolorosas lembranças de infância, e sua relação com seus pais, tal a profundidade psicológica que o autor alcança na descrição dos sentimentos, medos e desejos infantis que habitam a mente humana.
Por outro lado poderia ser um depoimento de uma vítima de abuso de poder e de violência doméstica levantando questões éticas importantes, tal a vivacidade da linguagem na descrição, crua , forte, da violência sofrida pelo narrador e personagem do conto.
O narrador descreve duas cenas infantis onde foi espancando , primeiro por sua mãe e uma outra cena mais importante e descrita com maiores minúcias, pelo seu pai que guardou na memória como absolutamente traumática e inesquecível.
Logo no início da leitura do Cinturão o que chama atenção e me parece o mais intrigante, é , como a vítima , o menino de 4 ou 5 anos, pode transformar-se em réu? O que fez ele? Qual sua culpa?
De que julgamento o menino estava participando?
Que espécie de justiça o conte se refere?
Por que seria natural os pais baterem em seus filhos?
Por que não guardou ódio de sua mãe e a desculpava colocando a culpa na corda? E os golpes físicos desapareciam quando findava a dor?
Por que seria a ameaça do pai pior que a dor física e pior que apanhar de sua mãe? Seria um outro tipo de ameaça? Parece que sim!
O menino se julgava um covarde habitual, débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, ao invés de sentir-se violentado, injustiçado. Por que deveria ele explicar-se onde estava o cinturão ?
Medo, muito medo reprimido , como fala o narrador, pois mesmo que soubesse onde estava o cinturão seria impossível responder, “emudecia, tão apavorado que se achava”,  e continua: “situação desse gênero  constituíam as maiores torturas de minha infância” e ainda, “O moleque  e os cachorros eram inocentes”, e ele não era?
O martírio e o suplicio ao qual se refere estariam muito mais ligados a um medo reprimido e a ameaça que seu pai representava, “O suplicio... por muito prolongado que tivesse sido não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho dele a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível”. 
            Segundo Sigmund Freud, na infância exatamente na idade do personagem do conto, isto é , entre quatro e cinco anos, o menino sente-se muito ameaçado pela figura do pai , e tem medo de ser  punido por ele e até castrado pelo desejo incestuoso que tem pela mãe. Resumidamente , isto é o que se denominou como Complexo de Édipo. No conto apesar de uma situação de realidade acontecer, isto é , a violência dos pais em relação ao filho,  tão real e atual encontrada em nossa sociedade, existe um horror a mais, um medo reprimido a mais, uma vítima que se  considera réu, uma atitude de alguém que merece castigo, além de toda a fragilidade de uma criança frente a agressão de um adulto. 
              Talvez isso possa explicar porque se coloca como réu e não como vítima, porque o sentimento que fica da surra de sua mãe é diferente da do seu pai e talvez esse julgamento e a justiça que o narrador se refira esteja ligada a essas fantasias mais profundas da mente humana. E a incapacidade do pai de pedir perdão ao menino pela injustiça cometida em relação a ele, quando achou o cinturão, poderia aliviar a culpa inconsciente do filho, e este por sua vez poderia sentir-se mais amado com sua auto estima aumentada. 
              “E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão miúdo e insignificante como as aranhas que trabalham na telha negra”. “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”. A justiça  aconteceu no nível inconsciente. E na outra camada , isto é da realidade, a justiça parece que sempre é um pouco injusta.
O conto é uma criação literária que é ao mesmo tempo denúncia e testemunho.


Rio de Janeiro, 04 julho de 2006


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