*Breve Anunciação, um olhar
por Rosália Milsztajn
O amor é coisa de alma quando João Corrêa - que fez a
concepção e direção do poema belíssimo de Thereza Roque da Motta, "Breve
Anunciação" - veste os personagens em cena.
No início do espetáculo, despidos no ato amoroso, pouco a
pouco colocando suas roupas, se desnudam um para o outro, e também para nós,
espectadores, num diálogo amoroso sem fim que se sustentaria ao infinito se
eles, ou qualquer um de nós, mortais, desse conta do amor que é eterno,
infinito, ultrapassando-nos e transbordando num discurso entre os personagens
do amor, quase como marionetes empurrados e manipulados, encarnando a luta
entre o efêmero e finito com o que é perene e maior.
Além desta impossibilidade, existe ainda uma luta entre o
amor de si e o amor pelo outro que se debatem sem fim nem trégua, diante da
ameaça de aniquilamento de si para além da paixão irresistível despertada entre
homem e mulher ali no palco. Este palco é também uma sala, num mesmo piso que
nos inclui, a todos nós espectadores, dentro de um solar lindo e quase eterno,
o Solar do Jambeiro, em Niterói.
O amor que se desenrola ainda na possibilidade só é viável
na medida em que possa realizar o amor de cada um por si e pelo outro concomitantemente:
"Ama-me como eu me amo e como um dia te amaste", ou ainda,
"Amo-te como um dia fui amado por mim. Amo-te para voltar a amar-me".
Cada um quando olha para o outro procura delinear seu próprio corpo, sua pele,
seus limites, sua identidade e, caso o amor pelo outro ultrapasse o amor por si
mesmo, deve ser imediatamente afastado com todas as garras da violência e com
qualquer subterfúgio, mesmo com palavras mentirosas escritas como pontiagudas
facas, controlando aquilo mesmo que nos escapa e maior que nós.
Acho que Thereza Rocque da Motta fica totalmente à vontade
com seu texto na descrição desse discurso já que sua lindíssima poesia tem o
dom de encarnar todas essa nuances e estética próprias para descrever,
envolver, revelar e antecipar o incomensurável e o insólito do amor.
João Corrêa conseguiu, através de seu olhar extremamente
sensível e competente realizar a dramaturgia do poema e trazendo a eternidade
da palavra poética para a presentificação do palco. Jean Cândido Brasileiro e
Helena Hamam têm atuações brilhantes. São os protagonistas de "Breve
Anunciação", fazem o par dos amantes onde devem e conseguem atuar a
multiplicidade que o discurso e a situação amorosa impõem, além da complexidade
do um texto poético.
Tudo o mais é lindo e apurado, a música, a luz , o cenário e
a coreografia dos corpos. Bravo!
07/07/2013
*Pequeno ensaio sobre a Peça " Breve Anunciação , de Thereza Rocque da Motta
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