segunda-feira, 8 de julho de 2013


*Breve Anunciação, um olhar
                                                                                          por Rosália Milsztajn

O amor é coisa de alma quando João Corrêa - que fez a concepção e direção do poema belíssimo de Thereza Roque da Motta, "Breve Anunciação" - veste os personagens em cena.

No início do espetáculo, despidos no ato amoroso, pouco a pouco colocando suas roupas, se desnudam um para o outro, e também para nós, espectadores, num diálogo amoroso sem fim que se sustentaria ao infinito se eles, ou qualquer um de nós, mortais, desse conta do amor que é eterno, infinito, ultrapassando-nos e transbordando num discurso entre os personagens do amor, quase como marionetes empurrados e manipulados, encarnando a luta entre o efêmero e finito com o que é perene e maior.

Além desta impossibilidade, existe ainda uma luta entre o amor de si e o amor pelo outro que se debatem sem fim nem trégua, diante da ameaça de aniquilamento de si para além da paixão irresistível despertada entre homem e mulher ali no palco. Este palco é também uma sala, num mesmo piso que nos inclui, a todos nós espectadores, dentro de um solar lindo e quase eterno, o Solar do Jambeiro, em Niterói.

O amor que se desenrola ainda na possibilidade só é viável na medida em que possa realizar o amor de cada um por si e pelo outro concomitantemente: "Ama-me como eu me amo e como um dia te amaste", ou ainda, "Amo-te como um dia fui amado por mim. Amo-te para voltar a amar-me". Cada um quando olha para o outro procura delinear seu próprio corpo, sua pele, seus limites, sua identidade e, caso o amor pelo outro ultrapasse o amor por si mesmo, deve ser imediatamente afastado com todas as garras da violência e com qualquer subterfúgio, mesmo com palavras mentirosas escritas como pontiagudas facas, controlando aquilo mesmo que nos escapa e maior que nós.

Acho que Thereza Rocque da Motta fica totalmente à vontade com seu texto na descrição desse discurso já que sua lindíssima poesia tem o dom de encarnar todas essa nuances e estética próprias para descrever, envolver, revelar e antecipar o incomensurável e o insólito do amor.

João Corrêa conseguiu, através de seu olhar extremamente sensível e competente realizar a dramaturgia do poema e trazendo a eternidade da palavra poética para a presentificação do palco. Jean Cândido Brasileiro e Helena Hamam têm atuações brilhantes. São os protagonistas de "Breve Anunciação", fazem o par dos amantes onde devem e conseguem atuar a multiplicidade que o discurso e a situação amorosa impõem, além da complexidade do um texto poético.


Tudo o mais é lindo e apurado, a música, a luz , o cenário e a coreografia dos corpos. Bravo!


07/07/2013

*Pequeno ensaio sobre a Peça " Breve Anunciação , de Thereza Rocque da Motta

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